2.2.09

[... Montes Hermínios da Lusitânia...]

{... em montes hermínios da lusitânia, adocicadas cores trazidas pela nesga do vento: trazem-nos saudades do mar. encostados ao céu, voamos nestas paragens sem ninguém. e sempre que entre abertas nesgas de azul... as cores acontecem, rasgamos todas as raízes que cada cor nos faz sonhar. na solidão do branco prata, descemos a montanha em alegre correria antes que o azul se esfume para sempre. voamos. sem medo. encostados ao céu. em toda a sua extensão percorremos todos os seus segredos. voamos... sem medo. nos montes hermínios da lusitânia, a solidão faz sempre o mundo voltar ao mesmo lugar. o pastor vira caçador para vitoriosamente defender as cores da montanha. encostados ao céu, nestas terras sem ninguém, somos pintores do vento, em hermínios montes da lusitânia. }

[ El milagro de candeal ]

31.1.09

[...Blanc Nacré...]

{... directamente do corpo e às escuras, mas sempre presentes: o tacto, o olfacto, a audição. é a cinza prata-cinza mate que subimos e descemos, vezes sem conta, a janela que nos leva ao cimo desta serra. estimulados os sentidos... todas as memórias... se diluem neste eterno nevoeiro. às escuras, ficamos sós. sem cores, ficamos sós. mergulhados em blanc nacré, à escuta da inconstante e supersticiosa noite, para que o canto da coruja nos traga daquele sonho: a cores. e é assim que subimos e descemos o pensamento... até que... supreendidos pelos sentidos da natureza, acorde também ela e definitivamente deste sonolento inverno pintado: a blanc nacré.}

[ Susana Félix - Amanhecer]

29.1.09

[... verde musgo... ]

{... na vertigem de todas as linhas rectas, erguem-se casas na sobreposição das pedras que aconchegam esta pequena aldeia retirada dos tempos de viriato: numa só alma. exóticas esquadrias rasgam os céus e a serra a verde musgo. tudo nasce dum único traço que nos preenche neste imenso vazio. envoltas em rodopiantes nevoeiros, as pedras levam-nos a novos caminhos apontando quase sempre misteriosos mapas. e é através do sábio equilíbrio adquirido no passado que se sabe escalar o presente e o futuro neste tempo escorregadio. manifesto o verde, as redondas pedras da montanha mudam de formas. repetitivamente. na vertigem de todas as linhas rectas, o plano vira redondo e tudo o que é redondo: traz aguçadas partidas a quem passa. e se o povo acordar e descer a serra... cansado de tanto nevoeiro, que segundo dizem... assim lhes foi imposto... por alguém... que em rituais alianças os condenou a este mágico silêncio!... quebrado o cinza, o verde musgo pintará para todo o sempre: todas as pedras da serra da cor do céu.}

[ Sigur Ros - Von ]

26.1.09

[... Pássaros de Pedra... ]

{... no povoado das casas de pedra, todas as vidas são solitárias. há lendas e mil estórias de encantar. encostados ao céu, entregam-se ao tempo e enterram os sonhos na terra que cultivam. afundam-se nas cores da montanha para envelhecerem na encosta da serra. trazem na alma o vento e conhecem todas as estrelas de cor. o povo das casas de pedra olha sempre com estranheza quem por esta serra passa. porque entre as pedras e os paus que se abeiram do céu, eles são guardiões de misteriosos segredos. há gerações que abraçam novas terras em longínquos voos. nas memórias, levam os cheiros estonteantes das fogueiras e os animais que os acompanharam a vida inteira. quisera este povo sonhar sempre de novo. quisera, este povo que a pedra fosse vida: semente de outro mágico lugar. }

[ Fleetwood Mac - Songbird (live)]

25.1.09

[ ... Tierra Sombra Tostada... ]

{... no topo da montanha a pintura torna-se versátil. não há verde paolo veronés, nem azul prusia. o verde permanente virou terra. nesta aldeia, a terra é tostada, queimada, ocre, toda ela ainda coberta de branco titanio. na zangaria das cores, a serra cortou todos os caminhos e virou-se para o céu. fechou-se em si. escondendo todos os pigmentos no manto extenso deste inverno. não há opacidades nem transparências em tudo o que dela se vê. tudo é branco titanio. as aldeias são encerradas e as ruas fechadas. assim ficamos. sem verde paolo veronés, azul prusia, amarelo alaranjado ou carmim. tudo é branco titanio durante o dia e negro óxido à noite. assim ficamos, sentados nas memórias das cores. nós e a serra... à espera que a terra vire verde permanente... pintada de tierra sombra tostada. }

[ RUA DA ATALAIA by Rodrigo Leao]

24.1.09

[...Mapas de Areia...]

{... percorremos aldeias feitas de pedra com sinuosas lareiras. trilhamos caminhos em contra mão com tantos outros viajantes. trilhamos a terra até ao fim da estrada. depois...tudo é areia. não há mais nada. tudo é... muito antes da pedra e do fogo: um mapa curioso. se pudessemos ser... casa de pedra, serra, mar ou planície para sempre, cruzariamos a vida sem medos ou sobressaltos. tranquilamente, até ao lugar onde e depois da última curva do mapa: tudo é areia. }

[Tom Waits - Somewhere]

19.1.09

[ ... Quebrar A Serra... ]

{... trazidas pelo vento, as cores dão forma às palavras musicadas na imensidão da serra. esbatem-se as cores nos sons e o vento na terra... na superfície branca da tela e do papel, para que a escalada dos pigmentos se transforme em vida. musicadas as palavras a terra acolhe o tempo. escuta. espreita. isola. sempre. repetitivamente, em todas as suas variantes: tons diferentes. }

[ Leila Pinheiro - Serra do Luar ]

15.1.09

[ Ouro no Feminino:Obrigado Ana Vidal!...]

{... agradeço comovida o prémio Blog de Ouro que tão generosamente a escritora ana vidal me atribuiu. "é uma coisa de mulheres, um reconhecimento de códigos, de ambientes e de sensibilidades", escreve ana vidal sobre este prémio. e eu agradecida, penso como retribuir no vazio deste lugar, onde a internet mal funciona e só ás vezes é que dá sinal de si... bem no meio desta serra, onde tudo ainda está branco e o tempo teima ser... sem outras variantes: nevoeiro. é que nesta nova cidade das tintas... além das cores e das palavras impressas em cadernos de papel: nada mais existe! por isso, mesmo aqui à mão... tenho um dos livros de ana vidal. "seda e aço". abro o seu livro. leio um dos seus poemas, também ele intitulado "seda e aço" e, revejo os últimos tempos de lapis exilis. por isso, faço questão de publicar aqui este poema de ana vidal:

Seda e Aço
São poemas: desabafos
como a própria vida, incertos
Vão deixando, passo a passo
misturas de seda e aço
mágoas fundas, céus abertos
sem simetria ou compasso...
in Ana Vidal, 2005, DG Edicções.

[ Sara Serpa Quintet ]

14.1.09

[... Asas de Água... ]

{... quiseste voar até ao branco mais alto desta montanha. quiseste. quiseste flutuar no gelo lago deste lugar. e vieste... e levaste-me contigo por tanto quereres voar. sobrevoamos praias de água geladas, pintadas pela manhã fria. quiseste de tanto querer acordar-me, do alto das tuas asas para que eu mergulhasse no teu olhar. quiseste voar ao branco mais alto da montanha. quiseste... planar no misterioso lago de gelo que se esconde no alto da serra. quiseste. apenas quiseste, acordar-me das ilhas desertas, para levares-me contigo, nas noites que não consigo sonhar. quiseste voar e sonhámos que das tuas asas de água, no ponto branco mais alto desta montanha: matámos saudades das cores do mar. }

[ Mark Pinkus at The Yellow Door ]