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{... há em ti casas desiguais. viagens de vida e cor. em ti... cruza-se o divino com a terra. mapa e abismo que dá cor às coisas simples. se houvesse tudo isto na terra sem ti... que faria eu na serra do meu pensamento? pensar é fácil. viver... é chegar a mil caminhos pintados a tons frios. a vida é uma viagem sem destino. emoção. paixão. ilusão. é uma casa desigual. sem ti... o simples, seria monotonamente sempre igual. vazio. pintado a uma só cor. por isso... somente por isso.... antes que a esperança morra e eu fique entre a terra coberta de pedra e o azul vivo do céu: cruza universos sem fim. vem. vem até à casa dos meus sonhos. lugar pintado de todas as cores para que entendas por fim: a viagem que fiz por ti...}
{... percorrer a emoção da vida, é saber que sem ver, nem sabemos o que vemos... na estrada do nosso olhar. quis o destino deste lugar fazer a desigualdade dos dias... ser pintada devagar. percorremos cidades, aldeias, serras. subimos até à montanha que em tonalidades de guerra e de vitória nos recebe a sós neste azul sem fim. procurei-te na súbida e a meio da estrada parei. fiquei. só para observar as mil portas desenhadas pelas nuvens que ausentes de tudo se esfumam nos céus. tantas estrelas. tantas pedras. sombra. luz. há isso tudo e tanto mais na estrada do nosso olhar. é tanta a vida que se esconde na escarpa desta montanha que eu fico parada... longe de tudo... só para a observar. e as telas... pintadas de cores adormecidas, aguardam em casa que eu traga no regresso... todos os tons do universo. percorremos cidades, aldeias, serras, oceanos... abrindo portas misteriosas desenhadas pelas nuvens que nos convidam a entrar. a ficar. entregues ao silêncio. parados. sós. descobrindo ver para além do nosso olhar. hoje, escutamos o lápis vento que não se cansa só de branco todo o azul do céu riscar. hoje, desenhei-te asas de prata nas nuvens deste lugar... porque todas as outras cores... já tu levas contigo... sempre que me fazes voar... }
{... há casas fechadas de portas abertas ao céu. nelas, se espreitam vidas, memórias, estórias. somos cidades perdidas na aldeia que habita em cada um de nós. somos, casas desabitadas da paixão que nos fez nascer. o amor tem muitos rostos pintados na ilusão de cada traço. dor. solidão. esperança. alegria. medo. tímido apelo ao abraço descuidado. arrebatadora espera que percorre desiguais caminhos só para que tu chegues um dia despedido de memórias. o amor é um desenho riscado... entre o sonho e o pânico de te perder. de nunca te encontrar. debaixo do céu, nas desabitadas casas desta serra, desenhamos abraços na montanha dos desejos, que só na tela deixamos acontecer. riscamos o vazio. entristecidos. porque todas as casas fechadas guardam estórias, memórias, palavras. quando olhares para uma casa fechada: não fales. observa. porque todas as pedras se erguem para o céu. eternamente. sempre em silêncio. pintado de negro azulado. pleno de mistérios, estrelas, cometas, planetas. traços e pontos coloridos a uma só mão. somos, frágil poeira que sem todo este céu, nunca poderíamos ser nem ter... asas para voar. somos espera contínua. até que o vento sopre e nos leve à casa onde a paixão e o amor num só traço possam um dia: florescer em toda a terra!... }
{... cheguei ao alto da montanha entre as serras que guardam segredos suspensos no tempo. desenhei riscos a lápis em pequenos pedaços de papel. entre telas adormecidas: voei. em todo este céu que se ergue das pedras entre serras, há uma porta aberta para o universo. é o que dizem nesta aldeia de casas feitas de pedra. de tanto me questionar, evaporam-se as tintas na oração dos dias e as telas de branco se pintam. conhecer o vazio é sonhar entre as mil pedras desta montanha. todos os quadros são inúteis perante a estátua e silêncio deste povoado invisível. a biblioteca desta casa cativa o regresso às palavras, às cores, às mensagens e aos sentimentos que cada livro contém. conjugar letras. ler livros. marcados. sublinhados. datados entre os anos de 1900,1920, 1935... parece que estiveram todos eles e este tempo todo, há nossa espera. talvez. talvez, porque nesta casa esquecida no tempo também a eles os quiseram a sós fazer ficar. dormimos. entregues ao sono, projectamos memórias lidas em cada livro. procuramos a pedra da arca. verdades. pensamento. fé. viagem. regresso. passado, futuro e presente num único ponto só: a existência. o começo. o fim. o culto. a espiritualidade. a obra! tudo isto ou nada. a partida. o sono. sempre antes que a noite tombe para que o sol aponte rápidamente um novo dia. nos montes hermínios da lusitânia procuramos a pedra da arca que nos fez voar. aqui. sombreando todos os medos que nos levam até à porta que se abre aos céus: há aqui voos desiguais. sonos esquecidos. agitados. imagens que vão e voltam... questionando símbolos. dúvidas. silêncios. leituras. vida! devoção ao grande mistério que nos fez certamente aqui chegar e reler a vida de "Berlioux". meditar. repensar. refazer o nosso objecto de vida: viver ou pintar!... }
{... trago imagens da montanha entre serras no coração. inverno branco. pintado de luz que cega e nos leva a caminhos de aflição. todas as cores se escondem no branco da neve. inventam-se arquitecturas no vazio e das memórias saem formas conhecidas. criam-se cidades. moldadas no gelo para não se andar de mãos dadas com a solidão. nas cores desta montanha há casas de pedra abandonadas que ressaltam do branco frio que já se esfumou. é a primavera que desce à aldeia deste povoado. sombrio. envelhecido. adormecido. para além dos pássaros que rasgam os céus quebrando a monotonia dos dias - tudo é pedra! ocre e mais ocre em ponto de fuga até ao horizonte. por vezes, fica mais escurecido aqui ou acolá. alternadamente. sem regras. sombreado pelas nuvens que percorrem e desenham em todo o seu dorso: figuras dançantes. sobreposições de imagens. são as pinceladas da vida que em gestos teimosos trazidos pelo vento... geram cor, flor e fruto nos acentuados declives das pedras da montanha. agora, só agora: tudo é quase vermelho cereja. }
{... invertem-se os livros. pintam-se as palavras. marcam-se as páginas para que o tempo não se esqueça das imagens que a vida contém. somos, como palavras esquecidas na biblioteca do tempo. já as imagens e as cores nunca adormecem. não se esquecem. surgem nos sonhos vezes sem conta. sempre... mudas de palavras. exibem cores e mais cores na memória do que somos. é a lógica do tempo que povoa a montanha entre serras. sem palavras. observando as cores. só na companhia de alguns livros, que sempre que os vamos abrindo... pintamos nas suas palavras: imagens. tudo isto, para que o sonho não se invirta em sono para sempre... e se esqueçam todas as palavras pintadas que cada quadro tem.}
{ ...no silêncio de todas as razões que fizeram tombar o azul no ponto mais alto destas montanhas: abro a arca das cores. observadas. isoladamente uma a uma. abro todas as portas desta casa. sem medo. à procura de quem nos acolhe e assim concretizar a mensagem que nos fez chegar aqui. abrimos as cores plenas de luz. em azul, magenta, vermelho, ocre, verde, amarelo, branco, cinza... entre todos os tons e pigmentos: o interior da casa e de nós próprios. chegar às cores desta serra é sentir o mistério das noites sombrias. todas as grandes casas são sempre um universo desconhecido. abertas todas as suas portas a paleta das cores dá a mão ao sono profundo. assim foi a viagem entre as estrelas e a serra. passeios longínquos entre o ser e o pensamento. o azul que trouxemos na mala não chega para pintar ao que nos trouxe a esta aldeia tão tranquila. viagens. talvez. entre os céus e o sono eterno: o desconhecido. entre a paralesia do sono e a razão: todas as casas desabitadas são muito mais que memórias. o sono é a continuidade do ser... e a cor é a reza tranquila que leva e transporta todas as memórias genéticas em mil vibrações que se desbobram conscientemente na alma do que somos e nos leva a habitar o estonteante azul dos céus. somos sinais de vida sem fim! somos ainda só o que ainda não sabemos. somos o que nada vemos na estrada do nosso olhar. tudo no mundo é pintado em silêncio. corpo que se desbobra. regressa. acorda e disperta num outro ponto mais azul do céu. vibra, volta, regressa. somos cor silêncio. sabemos, sem saber ser que a alma traz e leva tudo o que se avista com fé. no mais alto dos céus desta montanha entre as duas serras, há cores que rezam memórias dum mar que pintou de azul primário: a cor de portugal!..}
[ ... o que abre uma porta não é um dedo só. são as mãos. e tão diferentes são as mãos que na vida indicam a escolha do saber. dizem... que duma só mão se fez a vida!... a terra. o mundo. o destino. as emoções. os sentidos e todos os caminhos que escolhemos percorrer. isoladamente. sempre isoladamente, cada cor tem uma missão. significados. tons próprios. únicos. tal como os riscos, as letras, os números e os traços. se pensarmos em todas as suas possíveis combinações: são verdadeiros mistérios. segredos bem guardados na palma de cada mão. só mesmo o destino sabe quais os caminhos que cada um de nós tem que percorrer até à desejada porta do sentir. diz que existes... e percorrerei terras sem fim até chegar a ti. se for esta a porta que abrirá as mil cores com que deus pintou o mundo, então ... só o coração... o poderá sentir. ]
[ ... "o sentido da vida", é o título que a pintora daniela nunes deu à sua recente exposição que está patente até dia 24 de março, na albergaria d. nuno álvares pereira em santiago do cacém, no alentejo. são personagens. rostos. figuras riscadas a preto e branco. olhares que indicam e fixam em cada um de nós: o sentido da vida. desejos e promessas registados por traços espontaneos que na tela e na pele captam as marcas do tempo. no alentejo e nas suas extensas planícies, há rostos e olhares naquele povo... que em paisagens pintadas quase sempre em tons ocres desiguais: nos marcam para sempre. ]
{ ... ser, é um caminho conjugado no tempo: "indo". não somos. vamos sendo. sempre indo. porque somos sempre "indo" até... sem nunca se saber... quando deixaremos de o ser. não somos. vamos sendo. ser, é um caminho conjugado no tempo "indo". entre serras, nestes recantos esquecidos desta montanha, há quem saiba a dança do toré!... saber dançar o toré, é saber realizar todos os sonhos. quem a sabe dançar são os índios!... usam-se diferentes cores nos enfeites do rosto e a vida é por breves momentos intemporal. evoca-se o passado. projecta-se o futuro. enfrenta-se o presente. entre o saber e o ser... ressalta a memória histórica dos grandes guerreiros que se fizeram santos. hoje, nos cafés dos montes hermínios da lusitânia trocam-se conversas sobre d. nuno álvares pereira. porque... há certamente em portugal, mais misteriosos caminhos que conjugam o tempo entre os dois mundos: do ser e do saber.}