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{... guardamos para sempre todas as chaves das casas que já habitámos. guardamos para sempre todas as suas cores e as memórias nelas vividas. guardamos tudo isso em secretas ruas do pensamento. somos essencialmente uma imaginária caixa de recordações. lugar secreto. sagrado. retrato do nosso tempo. o que seriam de todas as casas... se não fossem habitadas? todas as casas são sempre desiguais... em cada espaço vivido... semeamos memórias. construímos novos mundos em pequenas dimensões que engradadas no algodão das telas: repousam as cores, os traços e os riscos dos nossos quadros. todo o quadro é uma casa habitada!... é exactamente por isso, que guardamos para sempre as memórias e todas as chaves das casas que já habitámos: no espaço sagrado da nossa imaginação. }
{... o sono é um estado alucinatório! liberta-se a mente e aparentemente todos os membros se paralisam. aparentemente ficamos imóveis no mesmo sítio. no mesmo lugar. vivos. entregues aos mistérios que o cérebro nos obriga a percorrer. durante o sono... abrimos portas. janelas. novos universos. curiosos labirintos. observamos imagens vindas do nada. adormecidos os sentidos, surgem cores e imagens desconexadas que invadem toda a lógica do nosso pensamento. não há princípio nem fim nesse grande universo: tecido de nós. nesse abandono temporário, contemplamos momentos felizes. estranhos. complexos. é nele que se apagam as tristezas. no extenso pano que se abre e nos envolve: somos o futuro. o passado. o presente. o sono é sempre intemporal. alucinação. viagem. momento único. lugar onde tudo o que é lógico... se separa logo desde o seu início da racionalidade. sempre. objectivamente a mente serve para difundir o corpo no tão desejado ciclo da imaginação. e tudo corre velozmente ao mesmo tempo: a mente, o cérebro, a alma, o corpo. repetitivamente. por vezes o corpo reage: vibra. arrepia. por vezes a mente: sente. acorda. por vezes a alma: move-se. entra em queda: flutua. rodopia. surgem as memórias, as estórias, os encantos, as aflições. aparentemente tudo se inicia aos solavancos. outras vezes... suavemente. há quem visione a tridimencionalidade das formas. é o início da viagem ao maravilhoso mundo dos sonhos. há personagens, conversas, imagens, lugares, sons, cores, texturas e novas densidades. nesse misterioso universo: somos apenas espectadores. somos sempre observados e observadores... até mesmo quando dormimos. }
{ ... penduramos todas as cores tingidas ao vento. tudo, alinhado numa só linha. paralela ao horizonte. esticados os panos de cada cor nas alvenarias das nossas memórias... ficamos sentados à espreita. imóveis. em silêncio. fechamos os olhos e conseguimos observar o movimento... das cores. decifrar os sons. descurtinar o vento. tudo serve de alavanca para gerar o único pensamento que nos anima: sentir o movimento das cores. tudo é composto por linhas. sombras. cores. sons. esticada a corda... voam as imagens e só o vento ficará para sempre... aqui e agora... dependurado na encosta da nossa imaginação. tudo o resto... não é mais do que um risco, que seguido de outros riscos pintados sempre de tons desiguais e incertos... projectam no fim de cada vida: todas as cores tingidas pelo tempo. }
{... há anjos que trespassam o nosso olhar. na subida à montanha, pintamos linhas invisíveis. damos cor a toda a matéria inerte de vida. inerte. quem disse... que o invisível é inerte e não tem vida?!... há tantos anjos na terra como estrelas no céu. prefiro descortinar o vazio.... que das leis da física seguir todas as regras lógicas que tanto impedem a humanidade de sonhar. há tantos anjos que nos espreitam... há tantos anjos que vivem ao nosso lado. há na subida à montanha, anjos que dão sinais de si... em todas as linhas abstractas do nosso olhar. quem disse que o invisível é inerte e não tem vida... matou em sí: a habilidade de sonhar. em um futuro próximo... talvez, todos os anjos sejam descobertos num simples olhar. talvez... quando ocuparmos também nós: o lugar do eterno vazio que existe entre as pedras e a terra estrelar. }
{...nascemos. construímos sonhos. riscamos novos mundos. traçamos arquitecturas em todas as superfícies brancas do nosso pensamento. pensamos nos novos quadros! somos nada e tudo no tempo. somos o que sonhámos ser... porque teimamos ser o que sonhamos. hoje, nas gavetas das memórias procuramos o dia em que nascemos. das imagens a preto e branco, saem recortes da festa brava e memórias de meu pai: fundador do programa "sol & toiros". nesta viagem ao passado... surgem as cores do presente.a vida é um estranho recato de memórias. observadas isoladamente... selecionamos as cores e os dias que na sombra do que fomos: realçam marcantes momentos. viajamos no tempo. no silêncio de tudo o que povoa o universo... observamos. observamos que nem sempre fomos o que somos. mudamos rotas e desenhamos destinos. guardamos sorrisos e pintamos abraços. apagamos a dor e meditamos por instantes no complexo vazio dos que já partiram. rezamos. há tanta gente e gente nenhuma a habitar em nós. ao nosso lado. em cada retrato... voltamos aos retratos e damos conta que os mesmos servem de partida para projectar o que fazemos no presente. nas fechadas gavetas das memórias, guarda-se tudo religiosamente e o que há de mais sagrado: a família e os amigos. paramos o tempo novamente e observamos agora os novos quadros... veloz é o pensamento que traz e leva tudo o que observamos. sentimentos. cores. riscos. traços. palavras. imagens e momentos que nos levam até aos registos da infância. somos sempre tudo e nada no tempo. por isso, nascemos todos os dias para sonhar!...}
{... virados os rumos que nos levam de lugar em lugar - o céu. sempre o céu. quadro inacabado. sem princípio nem fim. suspenso. convite aberto a voos desiguais. pintura musicada pelos tons que animam esse misterioso vazio. aparentemente... o destino esboça o que somos. o que fomos. só aparentemente é que tudo é riscado no tempo que já se esfumou. não existe passado, nem presente, nem futuro... porque estamos sempre à espera da partida. no tempo. na vida. na terra. no céu. se pudessemos parar o tempo... não estaríamos destinados a virar o rumo que nos trouxe a este lugar. partimos nós é certo. aparentemente rumo ao céu... mas, ficam os riscos e as cores. a terra. o tempo. as palavras. os outros. os lugares. fica tudo o que não te disse antes de partires. inesperadamente. sem que eu soubesse. procuro dizer-te, que é de azul prussia... com que todas as cores hoje se abrem e preenchem o lugar que sou: em memória de ti...}
{... faz tempo que através das cores musicamos o vazio. não o que existe na terra, nem no universo. tudo é abstrato. as cores, a vida, o mundo, o espaço, a mente. por isso musicamos o invisível... e tudo o que haverá para além da nossa existencialidade. somos surpresa constante. somos olhar atento a todos os sinais que o universo nos coloca à frente. somos tanto mais que isto tudo que nem sempre sabemos ver. por vezes... dispersos de tudo, estamos condenados ao adormecimento das coisas simples que existem para além do nosso sentir. olhar. ver. escutar. ser. saber parar o tempo e voltar a olhar tudo o que é visível. contemplar o vazio. sempre. novamente parar o tempo e ficar à espera que o milagre aconteça. dispertos. atentos. decifrando as coisas simples que habitam o universo, o espaço... a mente. há tanta existencialidade para além do nosso olhar, que muito antes que o quadro aconteça... somos corpo, luz e cor. silêncio povoado de infindáveis misterios. entre todas as coisas lógicas com que o universo se fez: somos ainda invisíveis na sua complexa composição. faz tempo que aguardamos ver o que existirá para além do que observamos. faz tempo que musicamos o vazio através das cores. hoje, um pavão branco vindo do nada pousou na cidade das tintas. cantou e chamou por mim. ficou por instantes parado à frente das portas do atelier até que eu o visse. abri as portas. aproximei-me dele. olhei-o de perto. o telefone tocou e... desapareceu. se eu pudesse voar com ele... só se eu pudesse voar com ele... teria muito antes de tudo isto: pintado asas no seu olhar. }
{... poderíamos chamar ao alentejo: lugar eleito para os pintores. poderíamos fazer do alentejo a maior residência de artistas da europa... tudo isto porque fazemos das cores e da história de portugal: lugar perfeito para a pintura habitar. talvez por isso, recebi o trabalho e umas palavras escritas de pedro charneca saudando o misterioso universo da cidade das tintas! avivam-se os tons no amanhecer das planicies alentejanas e a luz aninha-se na tela. vagarosamente. sempre. riscamos memórias e traçamos novas rotas nos mares da nossa imaginação. há nesta terra a paz e todo o silêncio desejado do mundo. é onde habita o pintor pedro charneca. "aguarelista fascinado pela luz e sombra do Alentejo - Portugal, os seus temas integram paisagens rurais e urbanas e cenas do quotidiano. Nas cenas do quotidiano, Pedro Charneca revela uma atitude intimista das figuras que representa, configurando-lhes mais do que a forma e a cor - dando-lhes também alma e sentimentos. Num precurso de linguagem moderna Pedro Charneca vem buscando novas abordagens plásticas e novos materiais que nos transportam para uma atmosfera de nostalgia de um tempo que em breve não mais poderemos contemplar. No romantismo do seu olhar recriador, Pedro Charneca nos chama a sentir um tempo que foi nosso ou dos que nos precederam, na suavidade poética da aguarela, dando a sensação de que na transparência das suas pinceladas se guarda a história na visão de uma criança que teima em não querer ver o lado feio da vida. Como artista contemporâneo Pedro Charneca revela-se um valor seguro, de criativiade intimista arreigada aos valores da família tradições e dos laços afectivos. Escrupuloso em tudo o que faz, investe qualitativamente na profunda reflexão de cada obra, conferindo-lhes uma profunda maturação." parabéns pedro charneca!...}
{... desconstruir os rostos. apagar traços. voltar a riscar sobre as formas iniciais novos registos, novos olhares. sombras, volumetrias, linhas, traços. novamente os traços. luz e sombras a preto e branco. é assim o olhar de loreta lorenzon. quem olha e não vê... os infinitos traços que compõem um rosto... não dá conta, que a cada minuto das nossas vidas o nosso rosto se transforma, muda e ilumina novos olhares. nem sempre vimos tudo o que vemos quando olhamos para um rosto... porque tudo é sempre desigual. perceber o tempo, é saber observar a transfiguração de todas as linhas que animam o rosto de cada um de nós. a vida muda constantemente e com ela: o rosto transfigura-se. os traços, as expressões. o ser e o sentir... porque somos sempre memória do que fomos. somos retrato do passado, presente, futuro. somos riscos, traços, sombra e luz em constante transfiguração perante o olhar de loreta lourenzon. hoje, recebi as novas imagens dos quadros pessoais da pintora argentina loreta lorenzon com o titulo: "Ser tu propia obra de Arte! Be Art. Animate!" parabéns loreta... ficarei à espera que do teu atelier da argentina... quem sabe... talvez um dia... me envies imagens do meu próprio retrato. }
{... de olhos postos no céu: a montanha. cravada de rostos esculpidos pelo vento. matérias vivas que incendeiam memórias. são pedras sobre pedras rasgadas pelo tempo. delas... avistam-se guerreiros esquecidos entre as ervas que o tempo teima vingar. sólidas figuras que de olhos postos no céu contemplam as estrelas. manto azul ponteado a branco. tudo estático. aparentemente... tudo é estático. tudo é um só lugar. tudo é acertadamente visível. os corpos, as pedras, as estrelas, o céu, a montanha: os mares. objectivamente é sempre na incerteza de tudo que o vento sopra. veloz. sem sombra. vindo do nada. musicando o vazio. sem destino. percorrendo o manto azul, as pedras, os guerreiros esquecidos, as estrelas, as memórias enterradas pelo tempo... num único só ponto. firme. estático. pintado a vivas cores. no aparente equilíbrio de tudo o que ainda existe: debaixo do céu.}
{ ... Desde o início dos tempos que a grande ambição da Humanidade é descobrir o Mundo e nele, demarcar como sua pertença: territórios conquistados. Desde que o tempo é tempo, os homens sempre utilizaram as cores como simbologia de comunicação e linguagem entre os povos. Cada pigmento tinha o seu próprio significado. Tinha e tem. As cores sempre representaram estados de Alma e tensões sociais. As tribos identificavam-se pelas cores com que pintavam as máscaras e o corpo que ora em estado de euforia, alegria ou tensão, serviram sempre na história das Nações o grande veículo de expressão. Criadas as máscaras que colocavam no rosto as comunidades serviam-se delas, para se reconhecerem num campo de batalha. As máscaras, os fatos e as bandeiras que em rituais próprios fazem sublimar o medo dos homens para avançarem em campos de batalha, são ainda hoje, só que duma forma mais sofisticada: motivadores da violência. Os fatos camuflados ou outras vestes que a humanidade exibe em tempo de guerra, são estratégia ancestral de defesa corporal para ataque e defesa dos territórios, que não representam mais do que verdadeiros estados psicológicos inerentes ao universo da discórdia. Atrás de cada rosto, existem muitas outras máscaras que pintadas em “tons de medo” destroem na terra jardins, pessoas inocentes e lugares que antes deveriam ser guardados e preservados como terreno sagrado do grande universo que a todos ainda nos alberga no seu mais extenso manto azul dos Céus. A Guerra é um lugar vazio! Lugar onde as mãos da Humanidade são pintadas apressadamente de várias cores para esconder todos os medos que vencidos ou perdidos, são ausentes de cores sem esperança nem futuro. Perguntar a uma pintora quais são as cores do Medo… é de imediato pensar que as cores não se guerreiam: comungam entre elas. Porque a guerra cobre-se de todas as cores que fazem perder a esperança de pudermos mudar o Mundo. A Guerra é o maior abismo da Humanidade. Reflexo de nós próprios. Pintura e ritual que ainda hoje a humanidade teima em vestir esse ingrato gesto irracional: A Guerra! Guerra…Pintada a “vermelho carmim” que conduzirá sempre a “preto e branco”: A Humanidade à Morte. Às cores do nosso indesejável fim. O aluno Manuel Saraiva e a Vereação da Cultura do Fundão sob a direcção do espaço “A Moagem,” irão realizar o projecto a “Geopolítica da Guerra” sob o título “Os Mapas de Guerra: As Máscaras do Medo”, trazendo ao público uma exposição multidisciplinar em que as tensões sociais do próprio tema, são representados através do cinema, pintura, artesanato histórico, música, teatro, fotografia, uma palestra com a participação de um Jornalista repórter de guerra e um Fórum de debate e reflexão, culminando no final com um espectáculo de dança onde os corpos tombam no lugar mais vazio do Mundo: A Guerra!... (in Projecto Manuel Saraiva - "Geopolítica da Guerra") ...}
{... entre serras... nos montes hermínios da lusitânia conhecemos novas gentes. abraçamos silêncios, ausências, lendas e mitos que albergam ancestrais mistérios. neste lugar... desistimos de tanto resistir. traçámos planos. realizámos projectos. pintámos as "máscaras do medo". criámos a imagem para o projecto de manuel saraiva: "geopolítica da guerra - mapas de guerra, as máscaras do medo". no isolamento das aldeias perdidas entre serras... pensamos na guerra. a vida é tão incerta... que baixamos os pinceís, as tintas. objectivamos a montanha entre serras. desenhamos soldados, rostos, personagens... visões surgidas das pedras que a compõem. porque na montanha... todas as casas fechadas guardam segredos que se vão abrindo lua após lua. abrindo... novas portas que elevam o pensamento até ao nosso próprio limite. até onde as memórias ganham cor. surgem rostos pintados fitando além céus. descobrimos novos caminhos... e chegamos em paz a outros lugares... chegamos onde por vezes tudo se altera. toda esta serra é povoada de recantos, mistérios, espanto. aqui, tudo o que não é visível: existe! mudamos de rumo. mas, antes de tudo isso... pintamos as "cores do medo". damos rosto ao projecto "geopolítica da guerra" de manuel saraiva que começa já no dia 2 de maio. cinema, fotografia, artesanato histórico, pintura, música, dança, forum de debate e uma conferência, entre outras actividades fazem parte do programa que decorre até o dia 22 de maio. o manuel saraiva e o fundão estão de parabéns! o projecto tem um blog onde todo o programa pode ser consultado.
{... na paleta de cores fechada à porta deste voar... abraçamos chuvas, trovoadas, pragas, vindas do deserto que há entre serras. hoje, tudo está coberto de nevoeiro. não há serra nem montanha. tudo é pintado a cinza. tudo é frio. vazio de cores. nem se avista a serra, as árvores, o solo, o céu. os simples muros da casa. tudo é um lugar vazio. somos um quadro branco sombreado pela luz das memórias futuras. sons fortes caem dos céus. pintamos talvez... vindos do nada e do vazio. na paleta de cores que hoje se apagaram na tempestade deste voar. tudo é cinza. pintamos os tons do medo: troveja. }
{... há em ti casas desiguais. viagens de vida e cor. em ti... cruza-se o divino com a terra. mapa e abismo que dá cor às coisas simples. se houvesse tudo isto na terra sem ti... que faria eu na serra do meu pensamento? pensar é fácil. viver... é chegar a mil caminhos pintados a tons frios. a vida é uma viagem sem destino. emoção. paixão. ilusão. é uma casa desigual. sem ti... o simples, seria monotonamente sempre igual. vazio. pintado a uma só cor. por isso... somente por isso.... antes que a esperança morra e eu fique entre a terra coberta de pedra e o azul vivo do céu: cruza universos sem fim. vem. vem até à casa dos meus sonhos. lugar pintado de todas as cores para que entendas por fim: a viagem que fiz por ti...}
{... percorrer a emoção da vida, é saber que sem ver, nem sabemos o que vemos... na estrada do nosso olhar. quis o destino deste lugar fazer a desigualdade dos dias... ser pintada devagar. percorremos cidades, aldeias, serras. subimos até à montanha que em tonalidades de guerra e de vitória nos recebe a sós neste azul sem fim. procurei-te na súbida e a meio da estrada parei. fiquei. só para observar as mil portas desenhadas pelas nuvens que ausentes de tudo se esfumam nos céus. tantas estrelas. tantas pedras. sombra. luz. há isso tudo e tanto mais na estrada do nosso olhar. é tanta a vida que se esconde na escarpa desta montanha que eu fico parada... longe de tudo... só para a observar. e as telas... pintadas de cores adormecidas, aguardam em casa que eu traga no regresso... todos os tons do universo. percorremos cidades, aldeias, serras, oceanos... abrindo portas misteriosas desenhadas pelas nuvens que nos convidam a entrar. a ficar. entregues ao silêncio. parados. sós. descobrindo ver para além do nosso olhar. hoje, escutamos o lápis vento que não se cansa só de branco todo o azul do céu riscar. hoje, desenhei-te asas de prata nas nuvens deste lugar... porque todas as outras cores... já tu levas contigo... sempre que me fazes voar... }
{... há casas fechadas de portas abertas ao céu. nelas, se espreitam vidas, memórias, estórias. somos cidades perdidas na aldeia que habita em cada um de nós. somos, casas desabitadas da paixão que nos fez nascer. o amor tem muitos rostos pintados na ilusão de cada traço. dor. solidão. esperança. alegria. medo. tímido apelo ao abraço descuidado. arrebatadora espera que percorre desiguais caminhos só para que tu chegues um dia despedido de memórias. o amor é um desenho riscado... entre o sonho e o pânico de te perder. de nunca te encontrar. debaixo do céu, nas desabitadas casas desta serra, desenhamos abraços na montanha dos desejos, que só na tela deixamos acontecer. riscamos o vazio. entristecidos. porque todas as casas fechadas guardam estórias, memórias, palavras. quando olhares para uma casa fechada: não fales. observa. porque todas as pedras se erguem para o céu. eternamente. sempre em silêncio. pintado de negro azulado. pleno de mistérios, estrelas, cometas, planetas. traços e pontos coloridos a uma só mão. somos, frágil poeira que sem todo este céu, nunca poderíamos ser nem ter... asas para voar. somos espera contínua. até que o vento sopre e nos leve à casa onde a paixão e o amor num só traço possam um dia: florescer em toda a terra!... }
{... cheguei ao alto da montanha entre as serras que guardam segredos suspensos no tempo. desenhei riscos a lápis em pequenos pedaços de papel. entre telas adormecidas: voei. em todo este céu que se ergue das pedras entre serras, há uma porta aberta para o universo. é o que dizem nesta aldeia de casas feitas de pedra. de tanto me questionar, evaporam-se as tintas na oração dos dias e as telas de branco se pintam. conhecer o vazio é sonhar entre as mil pedras desta montanha. todos os quadros são inúteis perante a estátua e silêncio deste povoado invisível. a biblioteca desta casa cativa o regresso às palavras, às cores, às mensagens e aos sentimentos que cada livro contém. conjugar letras. ler livros. marcados. sublinhados. datados entre os anos de 1900,1920, 1935... parece que estiveram todos eles e este tempo todo, há nossa espera. talvez. talvez, porque nesta casa esquecida no tempo também a eles os quiseram a sós fazer ficar. dormimos. entregues ao sono, projectamos memórias lidas em cada livro. procuramos a pedra da arca. verdades. pensamento. fé. viagem. regresso. passado, futuro e presente num único ponto só: a existência. o começo. o fim. o culto. a espiritualidade. a obra! tudo isto ou nada. a partida. o sono. sempre antes que a noite tombe para que o sol aponte rápidamente um novo dia. nos montes hermínios da lusitânia procuramos a pedra da arca que nos fez voar. aqui. sombreando todos os medos que nos levam até à porta que se abre aos céus: há aqui voos desiguais. sonos esquecidos. agitados. imagens que vão e voltam... questionando símbolos. dúvidas. silêncios. leituras. vida! devoção ao grande mistério que nos fez certamente aqui chegar e reler a vida de "Berlioux". meditar. repensar. refazer o nosso objecto de vida: viver ou pintar!... }
{... trago imagens da montanha entre serras no coração. inverno branco. pintado de luz que cega e nos leva a caminhos de aflição. todas as cores se escondem no branco da neve. inventam-se arquitecturas no vazio e das memórias saem formas conhecidas. criam-se cidades. moldadas no gelo para não se andar de mãos dadas com a solidão. nas cores desta montanha há casas de pedra abandonadas que ressaltam do branco frio que já se esfumou. é a primavera que desce à aldeia deste povoado. sombrio. envelhecido. adormecido. para além dos pássaros que rasgam os céus quebrando a monotonia dos dias - tudo é pedra! ocre e mais ocre em ponto de fuga até ao horizonte. por vezes, fica mais escurecido aqui ou acolá. alternadamente. sem regras. sombreado pelas nuvens que percorrem e desenham em todo o seu dorso: figuras dançantes. sobreposições de imagens. são as pinceladas da vida que em gestos teimosos trazidos pelo vento... geram cor, flor e fruto nos acentuados declives das pedras da montanha. agora, só agora: tudo é quase vermelho cereja. }
{... invertem-se os livros. pintam-se as palavras. marcam-se as páginas para que o tempo não se esqueça das imagens que a vida contém. somos, como palavras esquecidas na biblioteca do tempo. já as imagens e as cores nunca adormecem. não se esquecem. surgem nos sonhos vezes sem conta. sempre... mudas de palavras. exibem cores e mais cores na memória do que somos. é a lógica do tempo que povoa a montanha entre serras. sem palavras. observando as cores. só na companhia de alguns livros, que sempre que os vamos abrindo... pintamos nas suas palavras: imagens. tudo isto, para que o sonho não se invirta em sono para sempre... e se esqueçam todas as palavras pintadas que cada quadro tem.}
{ ...no silêncio de todas as razões que fizeram tombar o azul no ponto mais alto destas montanhas: abro a arca das cores. observadas. isoladamente uma a uma. abro todas as portas desta casa. sem medo. à procura de quem nos acolhe e assim concretizar a mensagem que nos fez chegar aqui. abrimos as cores plenas de luz. em azul, magenta, vermelho, ocre, verde, amarelo, branco, cinza... entre todos os tons e pigmentos: o interior da casa e de nós próprios. chegar às cores desta serra é sentir o mistério das noites sombrias. todas as grandes casas são sempre um universo desconhecido. abertas todas as suas portas a paleta das cores dá a mão ao sono profundo. assim foi a viagem entre as estrelas e a serra. passeios longínquos entre o ser e o pensamento. o azul que trouxemos na mala não chega para pintar ao que nos trouxe a esta aldeia tão tranquila. viagens. talvez. entre os céus e o sono eterno: o desconhecido. entre a paralesia do sono e a razão: todas as casas desabitadas são muito mais que memórias. o sono é a continuidade do ser... e a cor é a reza tranquila que leva e transporta todas as memórias genéticas em mil vibrações que se desbobram conscientemente na alma do que somos e nos leva a habitar o estonteante azul dos céus. somos sinais de vida sem fim! somos ainda só o que ainda não sabemos. somos o que nada vemos na estrada do nosso olhar. tudo no mundo é pintado em silêncio. corpo que se desbobra. regressa. acorda e disperta num outro ponto mais azul do céu. vibra, volta, regressa. somos cor silêncio. sabemos, sem saber ser que a alma traz e leva tudo o que se avista com fé. no mais alto dos céus desta montanha entre as duas serras, há cores que rezam memórias dum mar que pintou de azul primário: a cor de portugal!..}
[ ... o que abre uma porta não é um dedo só. são as mãos. e tão diferentes são as mãos que na vida indicam a escolha do saber. dizem... que duma só mão se fez a vida!... a terra. o mundo. o destino. as emoções. os sentidos e todos os caminhos que escolhemos percorrer. isoladamente. sempre isoladamente, cada cor tem uma missão. significados. tons próprios. únicos. tal como os riscos, as letras, os números e os traços. se pensarmos em todas as suas possíveis combinações: são verdadeiros mistérios. segredos bem guardados na palma de cada mão. só mesmo o destino sabe quais os caminhos que cada um de nós tem que percorrer até à desejada porta do sentir. diz que existes... e percorrerei terras sem fim até chegar a ti. se for esta a porta que abrirá as mil cores com que deus pintou o mundo, então ... só o coração... o poderá sentir. ]
[ ... "o sentido da vida", é o título que a pintora daniela nunes deu à sua recente exposição que está patente até dia 24 de março, na albergaria d. nuno álvares pereira em santiago do cacém, no alentejo. são personagens. rostos. figuras riscadas a preto e branco. olhares que indicam e fixam em cada um de nós: o sentido da vida. desejos e promessas registados por traços espontaneos que na tela e na pele captam as marcas do tempo. no alentejo e nas suas extensas planícies, há rostos e olhares naquele povo... que em paisagens pintadas quase sempre em tons ocres desiguais: nos marcam para sempre. ]
{ ... ser, é um caminho conjugado no tempo: "indo". não somos. vamos sendo. sempre indo. porque somos sempre "indo" até... sem nunca se saber... quando deixaremos de o ser. não somos. vamos sendo. ser, é um caminho conjugado no tempo "indo". entre serras, nestes recantos esquecidos desta montanha, há quem saiba a dança do toré!... saber dançar o toré, é saber realizar todos os sonhos. quem a sabe dançar são os índios!... usam-se diferentes cores nos enfeites do rosto e a vida é por breves momentos intemporal. evoca-se o passado. projecta-se o futuro. enfrenta-se o presente. entre o saber e o ser... ressalta a memória histórica dos grandes guerreiros que se fizeram santos. hoje, nos cafés dos montes hermínios da lusitânia trocam-se conversas sobre d. nuno álvares pereira. porque... há certamente em portugal, mais misteriosos caminhos que conjugam o tempo entre os dois mundos: do ser e do saber.}
{... ao longe, no distante horizonte que os nossos olhos não podem alcançar, entre o vazio e o nada - existe o céu. azul. espécie misteriosa. mapa sem fim. ninguém sabe donde veio nem para onde vai todo este azul. é sonho, feitiço, promessa, oração. entre o vazio e o nada - nada morre, tudo vive na mão do deus criador. desenho, criação, meditação. é sonho, promessa, esperança, oração. entre o sol e a lua, há sempre mais encanto quando à noite todo ele se veste de azul. o que faríamos das cores se não houvesse mais do que todo este azul, que nos aconchega e nos abraça neste misterioso mapa. não há vazio no nada! nem morte que não gere vida: na espécie misteriosa que dá alma ao céu. nesta montanha, entre serras, há mais mistérios e outras espécies de cores que nem a paleta dos pintores consegue desvendar. o céu. mapa azul... é tudo o que existe: entre o vazio e o nada.}
{... nestas terras... há conversas perdidas na solidão dos dias. há guerreiros e fortalezas pintados a pedra e lápis, nos desenhos e nos sonhos das crianças que não querem deixar morrer, todas as cores que ainda podem aprender. nas conversas mudas dos pastores, há mais terra em cada estrela que à noite dá mais cor ao céu. há luas novas e outras tais, que já apaixonaram mil aventureiros a partirem para outros mares. uns ficam outros vão!... no mistério das cordilheiras entre estas duas serras - o mundo quando aqui chega... fica. repousa. e por instantes encosta-se aqui. mata a sede dos que ficam... e da pedra da montanha desenha... no sonho de cada criança: tempos de esperança. é o espírito da montanha, que à noite nos espreita e nos aconchega. entre estas duas serras - o mundo todas as noites aqui se refugia. aconchega-se. fica. repousa. e por instantes aninha-se... aqui, nesta aldeia de alma pedra: encostada ao céu.}
{... simples. tudo poderia ser muito mais simples se o universo não existisse. e, se o pensamento que nos anima fosse ainda mais simples... que o próprio universo... se todo ele: não é mais do que um simples borrão pintado a negro. como encontrar - nessa ausência de cores - o fim e o início da nossa existência?!... tudo poderia ser muito mais simples: se o universo não existisse. tudo poderia ser mais simples neste eterno mistério mais-que-perfeito.}
{... se deus não tivesse esculpido as cordilheiras da solidão... o que fariamos na escarpa da serra, na montanha, nos mares e nas areias do deserto que povoam o mundo? somos alma em todas as viagens que percorremos. nem todos os lugares são totalmente - cidades desertas de nós. se fosse possível descrever todos os sonhos percorridos em vida... entenderíamos que nunca deixamos de viver neste lugar. assim nos fez deus: num só traço. esboço triunfante que meticulosamente deu luz às formas invisíveis: a alma. somos estátua viva encostados ao céu, à procura do tempo certo para aceitar que em cada pedra desta montanha... não somos mais do que luz e cor de um esboço seu. somos, viagem indeterminável nas cordilheiras da solidão... sempre que o sonho se eleva e finjimos adormecer. é que no vazio do manto, que há entre o céu e a terra... também nós queremos ser pedra... porque depois do mundo e da serra: há muito mais universo que os nossos olhos podem ver. }
{... nos montes da lusitânia, há igrejas fechadas pelo frio que toma conta da nossa solidão. se o universo fosse posto em causa... jamais mudariamos os relógios que governam o mundo e que ditaram como destino: passar por aqui. encostados ao céu: somos janela aberta a desconhecidos voos. somos pastores, poetas, pintores, missionários e defensores de todas as cores que a montanha nos chama a si. na escarpa de todos os sonhos: pintamos de cores quentes as gentes que ainda habitam nos montes da lusitânia. a solidão, aponta-nos as cores serenas de Deus... em cada pedra desta serra que nos observa e nos diz: que nesta viagem não estamos sós.}
{... em montes hermínios da lusitânia, adocicadas cores trazidas pela nesga do vento: trazem-nos saudades do mar. encostados ao céu, voamos nestas paragens sem ninguém. e sempre que entre abertas nesgas de azul... as cores acontecem, rasgamos todas as raízes que cada cor nos faz sonhar. na solidão do branco prata, descemos a montanha em alegre correria antes que o azul se esfume para sempre. voamos. sem medo. encostados ao céu. em toda a sua extensão percorremos todos os seus segredos. voamos... sem medo. nos montes hermínios da lusitânia, a solidão faz sempre o mundo voltar ao mesmo lugar. o pastor vira caçador para vitoriosamente defender as cores da montanha. encostados ao céu, nestas terras sem ninguém, somos pintores do vento, em hermínios montes da lusitânia. }
{... directamente do corpo e às escuras, mas sempre presentes: o tacto, o olfacto, a audição. é a cinza prata-cinza mate que subimos e descemos, vezes sem conta, a janela que nos leva ao cimo desta serra. estimulados os sentidos... todas as memórias... se diluem neste eterno nevoeiro. às escuras, ficamos sós. sem cores, ficamos sós. mergulhados em blanc nacré, à escuta da inconstante e supersticiosa noite, para que o canto da coruja nos traga daquele sonho: a cores. e é assim que subimos e descemos o pensamento... até que... supreendidos pelos sentidos da natureza, acorde também ela e definitivamente deste sonolento inverno pintado: a blanc nacré.}
{... na vertigem de todas as linhas rectas, erguem-se casas na sobreposição das pedras que aconchegam esta pequena aldeia retirada dos tempos de viriato: numa só alma. exóticas esquadrias rasgam os céus e a serra a verde musgo. tudo nasce dum único traço que nos preenche neste imenso vazio. envoltas em rodopiantes nevoeiros, as pedras levam-nos a novos caminhos apontando quase sempre misteriosos mapas. e é através do sábio equilíbrio adquirido no passado que se sabe escalar o presente e o futuro neste tempo escorregadio. manifesto o verde, as redondas pedras da montanha mudam de formas. repetitivamente. na vertigem de todas as linhas rectas, o plano vira redondo e tudo o que é redondo: traz aguçadas partidas a quem passa. e se o povo acordar e descer a serra... cansado de tanto nevoeiro, que segundo dizem... assim lhes foi imposto... por alguém... que em rituais alianças os condenou a este mágico silêncio!... quebrado o cinza, o verde musgo pintará para todo o sempre: todas as pedras da serra da cor do céu.}
{... no povoado das casas de pedra, todas as vidas são solitárias. há lendas e mil estórias de encantar. encostados ao céu, entregam-se ao tempo e enterram os sonhos na terra que cultivam. afundam-se nas cores da montanha para envelhecerem na encosta da serra. trazem na alma o vento e conhecem todas as estrelas de cor. o povo das casas de pedra olha sempre com estranheza quem por esta serra passa. porque entre as pedras e os paus que se abeiram do céu, eles são guardiões de misteriosos segredos. há gerações que abraçam novas terras em longínquos voos. nas memórias, levam os cheiros estonteantes das fogueiras e os animais que os acompanharam a vida inteira. quisera este povo sonhar sempre de novo. quisera, este povo que a pedra fosse vida: semente de outro mágico lugar. }
{... no topo da montanha a pintura torna-se versátil. não há verde paolo veronés, nem azul prusia. o verde permanente virou terra. nesta aldeia, a terra é tostada, queimada, ocre, toda ela ainda coberta de branco titanio. na zangaria das cores, a serra cortou todos os caminhos e virou-se para o céu. fechou-se em si. escondendo todos os pigmentos no manto extenso deste inverno. não há opacidades nem transparências em tudo o que dela se vê. tudo é branco titanio. as aldeias são encerradas e as ruas fechadas. assim ficamos. sem verde paolo veronés, azul prusia, amarelo alaranjado ou carmim. tudo é branco titanio durante o dia e negro óxido à noite. assim ficamos, sentados nas memórias das cores. nós e a serra... à espera que a terra vire verde permanente... pintada de tierra sombra tostada. }
{... percorremos aldeias feitas de pedra com sinuosas lareiras. trilhamos caminhos em contra mão com tantos outros viajantes. trilhamos a terra até ao fim da estrada. depois...tudo é areia. não há mais nada. tudo é... muito antes da pedra e do fogo: um mapa curioso. se pudessemos ser... casa de pedra, serra, mar ou planície para sempre, cruzariamos a vida sem medos ou sobressaltos. tranquilamente, até ao lugar onde e depois da última curva do mapa: tudo é areia. }
{... trazidas pelo vento, as cores dão forma às palavras musicadas na imensidão da serra. esbatem-se as cores nos sons e o vento na terra... na superfície branca da tela e do papel, para que a escalada dos pigmentos se transforme em vida. musicadas as palavras a terra acolhe o tempo. escuta. espreita. isola. sempre. repetitivamente, em todas as suas variantes: tons diferentes. }
{... laranja no epicentro: carregar no travao+start!... guardam-se as pedras da serra... nas algibeiras da memória e... partimos na rota das cores. }
{... agradeço comovida o prémio Blog de Ouro que tão generosamente a escritora ana vidal me atribuiu. "é uma coisa de mulheres, um reconhecimento de códigos, de ambientes e de sensibilidades", escreve ana vidal sobre este prémio. e eu agradecida, penso como retribuir no vazio deste lugar, onde a internet mal funciona e só ás vezes é que dá sinal de si... bem no meio desta serra, onde tudo ainda está branco e o tempo teima ser... sem outras variantes: nevoeiro. é que nesta nova cidade das tintas... além das cores e das palavras impressas em cadernos de papel: nada mais existe! por isso, mesmo aqui à mão... tenho um dos livros de ana vidal. "seda e aço". abro o seu livro. leio um dos seus poemas, também ele intitulado "seda e aço" e, revejo os últimos tempos de lapis exilis. por isso, faço questão de publicar aqui este poema de ana vidal: Seda e AçoSão poemas: desabafoscomo a própria vida, incertosVão deixando, passo a passomisturas de seda e açomágoas fundas, céus abertossem simetria ou compasso...in Ana Vidal, 2005, DG Edicções.
{... quiseste voar até ao branco mais alto desta montanha. quiseste. quiseste flutuar no gelo lago deste lugar. e vieste... e levaste-me contigo por tanto quereres voar. sobrevoamos praias de água geladas, pintadas pela manhã fria. quiseste de tanto querer acordar-me, do alto das tuas asas para que eu mergulhasse no teu olhar. quiseste voar ao branco mais alto da montanha. quiseste... planar no misterioso lago de gelo que se esconde no alto da serra. quiseste. apenas quiseste, acordar-me das ilhas desertas, para levares-me contigo, nas noites que não consigo sonhar. quiseste voar e sonhámos que das tuas asas de água, no ponto branco mais alto desta montanha: matámos saudades das cores do mar. }
{... escutar os sonhos que me conduzem a ti, é saber percorrer este caminho pintado de saudade. lá fora tudo é branco. a neve dilui-se no extenso nevoeiro e as cores sobresaem no interior de nós próprios. nada se vê para além do que existirá na tela. quem disse que o branco é nada?! quem o disse... nem sabe que o branco, é a saturação de todas as cores. é isso! lá fora há rodopios de cores agitadas em mil saudades de ti. para que servem os contornos, contrastes, brilhos e meios tons?... hoje, a serra adormeceu num outro sonho qualquer... de tão esquecida também ela de acordar. tudo é branco! penso em ti, e no rosto que te iluminará nos primeiros traços. escuto os sonhos. olho. não vejo nada. abro a luz e finjo que adormeço como a serra neste tempo perfeito. quem disse que o branco é nada?!... hoje, isolamos as cores e escondemos o medo do grande vazio que lá fora se avista. é isso!... }
{... como é teimoso o tempo que nos cruza, assim... e teimosamente nos volta a cruzar entre as mil viajens deste mundo. foi em 2005. decedidamente à busca de saber qual seria o trajecto de comboio até o tibete... que cruzei com o blog: alma de viajante. estava ele, no início da sua aventura. deixei-lhe palavras de coragem e agradeci todas as dicas que me enviou, de como se chegar ao tibete, sempre por terra. hoje, foi a sua alma de viajante que cruzou com o meu trilho dedicando também ele as seguintes palavras de animo: "Rede hoteleira ibérica promove arte: A Hoteles del Arte é a nova rede da Península Ibérica que visa promover artistas e os hotéis como locais de arte. Os fundadores são o Hotel Convento de S. Paulo, em Évora, Nautilus Lanzarote, em Lanzarote, e Hotel Palacio de la Serna, em Cuidad Real. A ideia nasceu pelo crítico Fernando Gallardo, do jornal El País. O projecto alia à estadia novas experiências culturais, promovendo os hotéis associados, o seu espólio artístico e eventos. A rede aceita quem “sinta o amor genuíno pela arte em geral, contemporânea em particular, em todas as suas formas”. Entre os artistas aderentes conta-se Alex e Teo Senra, Amaya Espinoza, José Seguiri, Juan Sukilbide, Maria Sobral Mendonça, Marijose Recalde, Nori Ushijima e Eugenio Bermejo". obrigado filipe gomes!... quanto ao tibete, está na calha. um dia, depois desta serra: instalo lá o meu atelier. } http://www.almadeviajante.com/travelnews/002607.php
{... arribadas as lendas ao céu... esvoaçamos medos em praias desenhadas na calada da noite. sonhamos. subimos inseguros entre as nuvens que se juntam a este navegar. perto da rota estrelar tudo é pedra. não há versos nem poesia neste silêncio. tudo é Deus. cruzados à sorte, somos caminhantes das fantasias que nos trazem ao aconchego outros mundos... não há tempo que sirva a serra, sem que a serra não sonhe ser montanha, para que depois de tudo isso e do alto de toda ela: a neve não queira ser mar! o que seria do voo dos pássaros sem o medo de planar a vasta planície que nos trouxe a este lugar? arribados todos os medos, vencemos. vencemos as sombras que encorpam as caídas noites em amanheceres cobertos de densos nevoeiros. não há versos nem poesia neste silêncio: tudo é volumetria. somos, meramente um extenso deserto cruzado à sorte. somos pedra, areia, pó que volta sempre à montanha mal o vento sopre vida. somos cruzados à sorte: tendas erguidas ao céu!...}
{... embebidos na alma da serra, ateamos fogos cheios de cor a novos sonhos. há quem vá para a serra depois da planicie para alcançar a montanha da vida. há também quem fique sentado em sí para sempre. adormecido. ausente de sonhar. sem forças para trilhar todos os invisíveis caminhos que têm alma e cor. sómente porque todos os desertos são solitários. abrem-se as cores porque aqui tudo é mais distante do vazio. pensar o mundo sem o percorrer é morrer. é exactamente por isso que na alma da montanha, entre as pedras que se aproximam dos céus... há quem desenhe casas na escalada de todos os sonhos. }
{... na sapiência das cores, nunca te sentes para sempre na curva dos sentimentos. eles regressam sempre que o outono dobra a tristeza do pensamento. nunca faças das palavras o único canteiro da vida... porque todas as flores são pintadas pelas águas do tempo. na solitária montanha que cresce desta serra: refugiámo-nos do mundo. aqui, estamos sempre em viagem sem sair do mesmo lugar. é essa a filosofia de toda esta serra. pintados todos os versos, novos mundos acontecem. hoje... na escalada desta montanha até à pequena aldeia, soube que um pouco de mim... faz parte da tua viagem: obrigado portugal! obrigado por me levares contigo.}http://www.recife.pe.gov.br/2008/12/09/prefeito_recebe_comitiva_de_portugueses_165047.php
{... branco. tudo é branco. daqui, bem no alto desta serra, o mundo fica mais perto de todos os nossos desejos. que assim seja até ao próximo inverno: boas festas e feliz ano novo.]
{... no pé da serra tudo é já absolutamente branco. senta-se o tempo, nós e os longos dias que virão. projecta-se a escalada da montanha e preparam-se as cores... mas, o branco da serra convida-nos ao silêncio. é entre o pé da serra e o céu que as novas cores serão pensadas. primeiro tudo é branco - o pé da serra as telas, o pensamento. depois... depois, sentados no tempo e nos longos dias que virão... a escalada das cores acontece. }
{... recolhidas todas as emoções que os olhos não podem ver... por vezes, acordados somos nas atropelias do sono. sonhamos pintados porque a noite é ainda noite. densa, escura, silenciosa. ouvinte dos nossos medos. carente de cor, luz, contraste. é sempre entregues ao que somos, que voltamos novamente ao sono. repetitivamente... para que as cores não findem por completo. recolhemos emoções e apagamos-lhes todos os riscos. efectivamente, é no regresso ao sono que o entendemos. básicamente, tudo isto só faz sentido porque temos a capacidade de ver sem olhar. pensando bem, é através do sono que entregues ficamos ao que realmente somos. repetitivamente e até ao fim... somos: malabaristas das memórias.}
{... a arte é a incrível capacidade de ver o invisível!...}
{... no paralelismo da sobreposição de vários pontos num só traço: a forma. sombreada, diluída, ténua. o preenchimento do todo e do vazio. o invisível a forma e a matéria. novamente o ponto. a sobreposição dos traços até à saturação das cores. repetitivamente. sempre. sobrepondo a cor sobre outra cor... a cada um dos pontos que risca o traço. sempre, entre o todo e o vazio. repetitivamente... até ser tudo branco. a última cor. no paralelismo da saturação da forma sobre toda a matéria: a sobreposição de vários pontos num só traço. a luz e as sombras. o invisível. sombreado, ténuo, diluído... no ponto branco que preenche o vazio. }
{ .... ao fundo de todas as estradas, a eixo de toda a imaginação: o oculto ponto preto! inatingível. misterioso. onde o futuro e o presente se econtram apenas num só ponto. únicamente e só uma vez. no oculto pendular do tempo... tudo está eternamente suspenso. na realidade, do dorso da montanha avistamos-lhe o fim. se fosse possível lá chegar, sem a grande caminhada: o mundo seria todo ele oco e vazio. no fim de todas as caminhadas, a eixo de toda a imaginação, o oculto ponto preto ganhará certamente: uma outra nova dimensão....}
{... rochosamente: o castelo. rochosas e azuladas pedras sobrepõem o tempo à história. a eterna conquista. escalada a alvenaria dos desejos... aviva-se a memória e erguem-se estátuas em todas as praças dos povoados. somos castelo, vila, cidade: apontamento vivo de todos os sonhos. somos heróis. estátuas de pedra. pó que sempre esvoaça na hora da queda. é no tão desejado retorno vivo do ser... que adormecidos sonhamos. }