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{... na estrada branca que nos transporta até à cabana dos segredos, ao longue e depois de tudo isto: a serra. pintada de branco. fria. gelada. silenciosamente ali. no depois, e depois de todas as curvas. recatando a fugosa escalada. rasgando ares em direcção ao céu. tocando o vazio. sempre. silenciosamente. apontando o lugar onde todas as serras terminam. ali, no depois de tudo isto: branca. fria. gelada. }
{... os sonhos são detalhadamente: instrumentos da recriação humana. talvez. provavelmente talvez sejam... todos eles, meros medidores da capacidade intelectual de cada um. há quem sonhe a cores. quem receba e entenda quais os caminhos que nos levam às grandes obras. quem atinga o aperfeiçoamento de tudo o que está errado, por defeito, em cada um de nós. há recados e mensagens em dialectos indecifráveis. há, tanto mistério oculto no adormecimento da consciência, que nesse universo (que não está ao alcançe de todos), cada um invariavelmente se espelha: no que realmente não se vê. desfragmentados todos os seus sinais, a tridimencionalidade do tempo, ganha sempre visíveis contornos. cores. odores. personagens. viagens. nos sonhos tudo é musicado, pintado, reescrito, vivido a desconhecidas mãos. no universo, somos à sombra de todos os seus infinitos sinais: imagens recriadas, inventadas, cópias reais dum complexo povoado. saber ler o que não está escrito, é saber interpretar o desconhecido. talvez, seja esse o novo livro. escrito noutro tempo. onde o futuro se adivinha e nos liga às páginas de um longo sono. na mesa ficam os lápis, o papel, o tempo. porque nós estamos sempre de partida. desfragmentadas todas as palavras do novo livro, os sonhos são detalhadamente: reflexo da incapacidade humana, em clarificar o grande mistério da vida. }
{... hoje, desertámos ao sul em abraços de saudade. percorridos todos os lugares que nos prende, pintámos ventos de esperança em reconhecidas areias. por vezes, sentados na saudade, percorremos lugares felizes. esboçamos futuros quadros. sonhamos. agitamos abraços sem endereço. somos sós... porque ninguém passa nestas terras. somos, sómente sopro de cores mutantes. somos pó, porque o tempo sempre nos alcança. somos sempre, noutros tempos, memórias do que fomos. somos, tão sómente: apenas deserto.}
{... na escalada da montanha que abrigará este inverno, instalam-se impacientes todas as cores. primeiro apagam-se os registos a todas as memórias. dispertam-se imagens adormecidas e por fim... abre-se a janela em tons de vermelho carmim. brindamos. incendiamos todos os sonhos e suavizamos o frio que já acontece. hoje... certamente que hoje, já escutaremos em silêncio: alaranjados vermelhos assim. }
{... ladeados os caminhos, aclara-se o mangenta às nuvens e as cores levam-nos sempre a outros lugares. a terras desconhecidas. a recantos perdidos. a arruamentos sem fim. há instantes que se confudem com paisagens já vividas. estranhas vivências nunca presenciadas. tudo isso. há momentos, em que se vaguea o olhar no vazio do infinito. todas as viagens têm o seu mistério. neste mapa, a planície abre sedeosas ruas das chuvas que já se fazem sentir. o inverno é ainda cinza. aclara-se o mangenta às nuvens e as cores levam-nos até à aldeia do pensamento. porque, só quando virados os campos brancos é que avistaremos a curva do novo dia. no seguimento da estrada amarela, tudo vai sendo - nada é. o próximo torna-se distante e, o tempo passa devagarosamente. }
{... empacotadas todas as memórias, pintamos de vivas cores, o céu que nos leva à nova casa. na viagem, transportamos caixas preenchidas de alegrias, tristezas, tintas, pinceis, vida. pintamos o céu das cores da terra e rebatemos novas saudades. vagarosamente. sem pressas. só com um único compromisso: regressar. trazer cores que preencherão outros vazios. novas caixas, casas, memórias. sem pressas. rumo à nova aldeia do pensamento. vagarosamente, saboriando o cheiro a terra. avivando as cores. retocando o vasto céu numa nova paleta de emoções. entregues ao tempo. até que se abra a porta do universo onde iremos projectar o futuro. onde as imagináveis horas, iniciam já a contagem dum outro tempo. sem pressas. só com um único compromisso: regressar. sem nunca esquecer o caminho que nos traz ao lugar donde vimos. sempre. vagarosamente. partimos. }
{... somos essencialmente - imagens que nos transportam para outras memórias. inventadas. alteradas. imaginadas. somos, essencialmente compostos de imagens. escritas. pintadas. musicadas. somos, tudo o que o silêncio nos pode dar. por isso andamos de terra em terra. no interior de nós próprios. sempre à procura de novas paisagens. essencialmente, ao encontro de tudo aquilo que os olhos não desvendam num simples olhar. é exactamente isso que nós somos. condenados ao silêncio que nos leva às inúmeras páginas que completam a obra. somos paisagens interiores projectadas na tela, no papel, na pauta, no écran. somos, procura eterna do silêncio. no sono. na vida. essencialmente feitos de imagens escritas, pintadas, musicadas e animadas pelo misterioso universo do pensamento. somos tudo isso e muito mais... quando essencialmente ficamos em silêncio.}
{... sucumbidos na transparência de todo o raciocínio lógico: caímos em sono profundo. desse enigmático universo trouxemos flores. jarros vermelhos. pinceís. nuvens ogivais enroscadas em escamas amarelas. brilhantes novelos densos. fechados. coloridas areias do deserto. hoje, voámos deitados. nós: o pensamento. o mundo. sem raciocínio lógico. sucumbidos à pura imaginação do sábio vazio. todo ele tão misteriosamente preenchido. colorido. abrilhentado de novos sonhos. tudo sempre em movimento. inventamos imagens. fazemos descobertas. pintamos sonhos. saímos do sono profundo. trazemos flores. jarros vermelhos. pinceís. nuvens ogivais enroscadas em escamas amarelas. brilhantes novelos densos. fechados. coloridas areias do deserto. extensos corredores de luz e tantas outras coisas jamais pensadas. chegamos. da viagem, que nos traz sempre ao mesmo lugar- retomamos o raciocínio. surgem as primeiras memórias. desnovelamos imagens e significados aos sonhos. ficamos adormecidos. entregues ao raciocínio lógico. sem nunca sabermos - o que realmente anima - o enigmático caminho de retorno, quando deitados voamos. }
{... rodada a saia. soltámos sonhos. dançámos a vida em bordados desejos. somos todas as cores. vivemos assim na dança da vida. incansávelmente até que o pano ceda. se rompa no tempo. aqui. onde o vento traz memórias de todas as horas. dançadas. em solitárias águas agitadas de prazer. soltámos sonhos. atravessámos rios. abrimos novas fronteiras. dançámos de todas as maneiras. incansávelmente até que o pano ceda. se rompa no tempo. aqui. dançamos a vida. pintada de todas as cores. bordamos desejos. rodopiamos memórias. dançamos sonhos. sempre. enquanto é tempo: vivemos assim. }
{... se pudessemos rebater o futuro, na sombra do que somos, a encruzilhada desta viagem deixaria de fazer sentido. tudo está teimosamente decidido assim. somos o que nunca se é realmente, porque no relógio do tempo, somos sempre sombra do já que fomos. essencialmente, somos desenhadores de outros mundos. ser mais do que isto... tudo deixaria de fazer sentido. todos os sonhos ficariam adormecidos. enterrados nas areias do desejo. guardados para uma próxima viagem. suspensos na superfície do tempo. tudo está decidido assim. somos desenhadores de outros mundos. projectamos o futuro na poeira do que somos. sempre entregues à aventura do presente. condenados a dobrar todos os medos. teimosamente à espera de novos mundos. sempre. teimosamente. porque somos muito mais... do que todos os medos sombreados à superfície do tempo. }